Versatilidade a toda prova

Pupunha ganha espaço nas mesas brasileiras por seus atributos culinários, variabilidade de opções em termos de preparo e valorização dos alimentos politicamente corretos

Texto José Augusto Bezerra
Fotos Ernesto de Souza


Bortman: sabor valorizado
Iguaria fina e valiosa, de larga aceitação no Brasil ou no exterior, o palmito pode ser extraído de várias espécies de palmeiras, além das já conhecidas Euterpe edulis (juçara), Euterpe oleracea (açaí) e Bactris gasipaes (pupunha). Pode vir da Syagrus oleracea (gariroba), Attalea dubia (indaiá), Arecastrum romanzoffiano (jerivá), Archantophoenix alexandrae (palmeira-real-australiana), Maximiliana tetrasticha (inajá) etc.

Cada palmito é peculiar no que se refere a textura, rendimento, aparência e palatabilidade. Alguns se assemelham em sabor ao juçara; outros se aproximam mais, em qualidade, do pupunha; e tem aqueles de caráter gastronômico incomparável, como o gariroba, apreciado no Centro-Oeste do país pelo amargor característico. Quando se trata de palmito em conserva, todas as palmeiras brasileiras entram do mesmo jeito (em toletes, rodelas ou picadinhas) no pote-padrão de 300 gramas, por comodidade e esperteza da indústria envasadora, embora, dependendo das espécies em consideração, só um gourmet possa diferenciar um produto do outro.

Até o pupunha, de sabor mais adocicado em relação ao juçara, passa apertado na comparação porque a salmoura usada para conservá-lo – ácido cítrico, cloreto de sódio e água – entranha profundamente nas fibras, nivelando-o quanto ao gosto.

Maior produtor, consumidor e exportador de palmito do mundo, o Brasil ainda não criou pratos de renome internacional com tal petisco, embora disponha de cozinheiros criativos, demanda crescente e matéria-prima diversificada. Um dos motivos é o preço alto – entre 12 e 20 reais o quilo. O outro, a perecibilidade. Quase 90% do palmito em oferta no mercado nacional são do tipo conserva – produto limitado no que diz respeito ao manuseio, à conservação e à durabilidade, se cotejado, por exemplo, com o pupunha natural.

Cada vez mais assíduo nas mesas brasileiras e nos cardápios de restaurantes nacionais ou estrangeiros, o palmito pupunha vem conquistando paladares e mentes pela possibilidade de formar pratos variados, além do sabor, aroma e textura característicos. Natural, rico em fibras, leve e sem colesterol, compõe uma infinidade de pratos, podendo ser transformado em conserva, se o cozinheiro ou gourmand assim o desejar. Não bastassem suas qualidades culinárias, ganhou adeptos também pelo viés ecológico. Afinal, a produção nacional depende basicamente de cultivos estabelecidos, de baixo impacto ambiental, com nome e sobrenome conhecidos. Quem compra pupunha geralmente sabe de onde vem (não é palmito extraído ilegalmente, como ocorre cotidianamente com o juçara).

Muitos restaurantes e chefs de cozinha renomados, como Ricardo Bortman, do Casa Grande Hotel, instalado no município do Guarujá, litoral norte de São Paulo, adotaram a pupunha também pelo aspecto "ecologicamente correto". Ex-chef do restaurante Leopoldo, na capital paulista, com cursos de especialização na Itália, França, em Israel e nos Estados Unidos, Bortman é adepto da cozinha mediterrânea contemporânea, que mescla receitas da região (famosa pelos pratos leves e saudáveis) com temperos "exóticos" (Tailândia, Cuba, Índia, Brasil etc.). "Nosso propósito é harmonizar aromas, gostos e texturas, valorizando o sabor de cada alimento", explica. O prestígio do palmito pupunha vem daí. Também é tachado genericamente como "exótico", embora seja nativo da Amazônia. Classificações à parte, é produto de aproveitamento integral, segundo ele. "Uso tudo que eu compro, sem desperdiçar nada", justifica.

Débora, com suas criações: "Pupunha in natura permite mil modos de preparo"
Assado, cozido, flambado, cru, serve tanto a receitas sofisticadas, como o "Salmão grelhado em leito de carpaccio de pupunha e cassoulet de pupunha e cogumelo selvagem", que Bortman criou para GLOBO RURAL, quanto a pratos simples, mas nem por isso menos apetitosos, como "Aperitivo à milanesa do Sítio Modelo", ou "Salada de pupunha in natura à selo verde", da artista plástica Débora Defino, de Santos, SP. Sócia de Ricardo Luiz de Oliveira e Leonardo Germano da Silva, citados na reportagem "Todos no mesmo barco", nesta edição, ela trocou o ateliê pela plantação, dedicando-se ao desenvolvimento da identidade visual da empresa. Foi ela quem criou a logomarca Selo Verde, por exemplo. Vivendo há seis anos entre palmeiras e palmitos, ela também criou receitas. "Eu me coloco na posição de dona de casa que gosta de experimentar novidades, de misturar coisas e inventar pratos novos", diz.

DIVERSIDADE

Em sua opinião, a grande vantagem do palmito pupunha in natura é a variedade de opções que ele pode oferecer. "Se você quer uma salada, é só cortar ou ralar e montar o prato. Se gosta de churrasco, pode colocar a haste com casca e tudo na brasa ou fazer como alguns cozinheiros de restaurantes que, para ganhar tempo, retiram o miolo, assam-no à parte na grelha e depois o servem na casca, preservando a rusticidade do produto. Lasanha, carpaccio, empadões, tortas, pizzas, são muitas as possibilidades", arremata. Débora gosta especialmente de suco de pupunha. Não se trata do sumo do fruto da pupunheira, a exemplo do que se faz com açaí, e Marcos Migliano, também personagem da reportagem anterior, quer fazer com sementes de juçara. É suco do palmito. "Ponha os toletes, raspas ou sobras no liquidificador com folhinhas de hortelã, uma pitadinha de açúcar, ligue o aparelho, e pronto! É só beber. Parece suco de melão. É uma delícia, principalmente no verão." A seguir, as delícias das quais falamos anteriormente.

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Reportagem (Globo Rural) / Fechar