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Rústica, precoce mas
exigente
Pupunha se afirma
como agronegócio, sob os aspectos econômico, social e ambiental
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| Pupunheiras do Sítio Modelo, em Itariri, SP:
exemplo de cultivo bem-sucedido |
O Brasil derruba 400 milhões de palmeiras por ano, segundo dados
da Abrapalm - Associação Brasileira dos Produtores de Palmito
Cultivado. Desse total, apenas 3% sobrevêm de áreas de manejo
auto-sustentado. Até 30 anos atrás, o palmito-juçara predominava
no mercado nacional. Porém, com a escassez provocada pelo extrativismo
predatório, muitas indústrias de conservas passaram a buscar o
produto de açaizeiros e pupunheiras, na Amazônia. Atualmente,
prevalece o açaí. No entanto, a pupunha vem ganhando adeptos entre
agricultores e empresários, em função da alta lucratividade e
demanda por palmitos de qualidade no mercado internacional. A
Agroceres, associada à empresa equatoriana Inaexpo – maior exportadora
mundial de palmito –, está plantando pupunha em Uruçuca, na região
de Ilhéus, BA. Segundo a pesquisadora científica Marilene Bovi,
do IAC – Instituto Agronômico de Campinas, SP, a pupunheira, especialmente
a sem espinhos, apresenta quase todas as características apreciadas
no gênero Euterpe, acrescidas de vantagens como precocidade
(primeiro colheita de 1,5 a 2,5 anos, contra 8 a 12 anos da juçara
e do açaí), perfilhamento (emite vários rebentos, facilitando
assim a exploração econômica e a perpetuação da espécie) e rusticidade
(pode ser cultivada a pleno sol em capoeiras e áreas desmatadas,
ao contrário da juçara, que exige sombreamento e só se desenvolve
bem em mata densa). Além disso, não escurece após o corte, favorecendo
o processamento e permitindo venda in natura. Salmão grelhado
em leito de carpaccio de pupunha! Palmito aperitivo! Quem já experimentou?
(Leia a seção Receitas,
nesta edição.)
São Paulo é o maior produtor de palmito pupunha do país. No total,
o Brasil dispõe de 12 a 15 mil hectares de pupunheiras. O cultivo
expandiu-se há dez anos com a entrada de grande quantidade de
sementes peruanas no mercado nacional, mas, por desinformação,
desleixo e, em alguns casos, "esperteza", a atividade refluiu.
Segundo pesquisadores, um dos motivos da retração foi a inexperiência
dos agricultores.
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| Para Germino, o perfilhamento é a maior das
vantagens da pupunha sobre a juçara: "Todo dia é dia de
colheita" |
Dos que abandonaram a atividade, a maioria o fez na fase inicial
de cultivo, por falta de informações corretas sobre instalação e
manejo de mudas ou por não planejar adequadamente o plantio,
considerando as características locais de clima e solo. "A
pupunheira é rústica, precoce, perene, mas muito exigente. Precisa
de adubação balanceada, correção do solo e boa distribuição de água
ao longo do ano, dependendo de irrigação em áreas de poucas chuvas.
Além disso, é sensível a algumas doenças", explica Ricardo Luiz de
Oliveira, um dos sócios do Sítio Modelo, de 8 hectares, situado em
Itariri, SP.
Formada a partir de 1995 nas proximidades do
Bairro Raposo Tavares, nas faldas da Serra do Mar, a propriedade
abriga 20 mil pupunheiras derivadas de sementes peruanas.
Selecionadas em campo de matrizes com baixo índice de espinhos, as
mudas foram introduzidas em viveiros construídos no próprio sítio,
antes de serem transplantadas nas áreas de produção. "Do plantio à
colheita, nós seguimos rigorosamente as recomendações oficiais dos
órgãos de extensão e pesquisa agronômica do estado de São Paulo. Faz
parte da nossa maneira de encarar a agricultura", afirma Ricardo,
lembrando que o IAC, seu principal fornecedor de tecnologia, usa o
sítio desde 1997 para fazer experimentos sobre adubação e calagem em
pupunheiras, sob orientação de Marilene Bovi. Por conta da aplicação
do saber científico, dos conhecimentos práticos adquiridos e da
dedicação dos sócios, Débora Defino e Leonardo Germano da Silva, o
Sítio Modelo acabou virando referência em pupunha. Transformou-se em
"unidade demonstrativa" (não oficial) da Secretaria de Agricultura
de São Paulo para dias de campo ou excursões de estudantes de
agronomia. O próprio Ricardo virou consultor. Além de tocar a
propriedade ao lado dos sócios e do capataz, Germíno da Silva, e
cuidar dos negócios (vende pupunha sob a marca "Selo Verde" para
fabricantes de conservas, supermercados e restaurantes do litoral),
ele desenvolve trabalhos de parceria na implantação de novas áreas,
comercialização da produção de terceiros, instalação de viveiros e
recuperação de áreas degradadas.
ALTERNATIVA
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| Ricardo (entre Débora e Leonardo):
"Para não errar, basta seguir as recomendações agronômicas"
|
"O palmito de pupunha vem se consolidando como um agronegócio
extremamente viável sob os aspectos ambientais, econômicos e
sociais", resume. No primeiro caso, pode ser explorado com enfoque
ecológico. Germíno aplica amendoim silvestre (Arachis pintoi)
para agregar nitrogênio, manter o solo úmido e eliminar capina e
roçada, evitando, assim, herbicidas e iscas de tronco de bananeira
misturada com melaço de cana em vez de inseticidas para combater
coleópteros. No segundo caso, o custo de implantação é relativamente
alto (de 4 a 8 mil reais por hectare, com custeio anual variando de
600 a 1.200 reais), dependendo do perfil da região, insumos e
mão-de-obra, mas o investimento pode ser resgatado em pouco tempo,
como mostra o quadro abaixo, elaborado pelo próprio Ricardo.
Um hectare de pupunha produz cerca de 1.700 quilos de
palmito e 2.300 quilos de subprodutos: palmitos picados ou em
rodelas. A rentabilidade varia em função dos investimentos e da
mão-de-obra, mas, no geral, o produtor pode contar com lucro anual
de 1 a 3 reais por pé plantado, considerando densidade média de 5
mil pés por hectare e, naturalmente, manejo correto. "Que lavoura dá
tal rendimento?", questiona Ricardo. No terceiro caso (o aspecto
social do agronegócio pupunha), a implantação da cultura pode
significar trabalho para milhares de pessoas. Ele mesmo constatou,
ao levantar dados sobre a situação fundiária no estado, que apenas
no Vale do Ribeira e na Baixada Santista existem 25,8 mil hectares
de terras inaproveitáveis em 2.002 propriedades (125 milhões de pés
de pupunha). Dessas áreas, dois terços delas estão dentro do
critério fundiário para agricultura familiar. Cerca de 90% têm até
50 hectares. Metade é trabalhada pelo dono e familiares. Se houver
interesse em melhorar as condições de vida da população, a pupunha é
um caminho. Além disso, é um grande negócio.
| RELAÇÃO DAS DESPESAS E RECEITAS NA IMPLANTAÇÃO DE
PUPUNHA |
| |
1º ANO |
2º ANO |
3º ANO |
15º ANO |
| Vendas para a indústria (em
reais) |
0,00 |
4.400,00 |
7.150,00 |
7.150,00 |
| Vendas para o
consumidor (em reais) |
0,00 |
10.000,00 |
16.250,00 |
16.250,00 |
| Despesas com mudas subsidiadas
e mão-de-obra familiar |
1.260,00* |
740,00* |
600,00* |
600,00* |
| Lucro acumulado com vendas
para a indústria |
1.260,00* |
2.400,00 |
8.950,00 |
87.550,00 |
| Lucro acumulado com vendas
para o consumidor |
1.260,00* |
8.000,00 |
23.650,00 |
211.450,00 |
| Despesas com mudas produzidas
(0,30 real) |
4.060,00* |
1.940,00* |
1.250,00* |
1.250,00* |
| Lucro acumulado com vendas
para a indústria |
4.060,00* |
1.600,00* |
4.300,00 |
75.100,00 |
| Lucro acumulado com vendas
para o consumidor |
4.060,00* |
4.000,00 |
19.000,00 |
199.000,00 |
| Despesas com mudas compradas
(0,70 real) |
6.060,00* |
1.940,00* |
1.250,00* |
1.250,00* |
| Lucro acumulado com vendas
para a indústria |
6.060,00* |
3.600,00* |
2.300,00 |
73.100,00 |
| Lucro acumulado com vendas
para o consumidor |
6.600,00* |
2.000,00 |
17.000,00 |
197.000,00 |
| Observações:
1) Considerou-se colheita de 4 mil palmitos por
hectare ao ano no primeiro e segundo anos e colheitas
subseqüentes de 6.500 palmitos por hectare ao ano (plantio de
2 x 1 metro, sem irrigação); 2) Calculou-se o valor
médio de 1,10 real pela haste de palmito (preço pago ao
produtor pela indústria de conservas); 3) Calculou-se o
valor médio de 2,50 reais pela haste de palmito (preço pago ao
produtor pelo consumidor - restaurantes, supermercados
etc.); 4) *Os valores em negrito correspondem às
despesas (investimentos ainda não recuperados) Fonte:
Ricardo Luiz de Oliveira/Palmito Selo
Verde |
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